Pacientes que sofrem de artrite reumatoide (AR), que limita ou até cessa a funcionalidade de partes do corpo, correm risco de serem atingidos por outras doenças, como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral. Esse foi o foco de uma reportagem publicada pelo Correio Brasiliense, que chama a atenção para o benefício de diagnóstico o mais precoce possível da AR para aumentar as chances de controlar seu avanço.

A coordenadora da Comissão de Artrite Reumatoide da SBR, a reumatologista Licia Maria Henrique da Mota, dá esclarecimentos sobre o tema, iniciando com detalhes sobre o que é a AR: “Trata-se de uma doença inflamatória e é importante que todos os pacientes saibam que, além de terem artrite, existe a possibilidade do aparecimento de outras doenças concomitantes, o que se chama de comorbidades ou patologias associadas”, salienta Licia.

Ela explica que, em primeiro lugar, se deve considerar que, como a artrite reumatoide é uma doença autoimune, outras doenças desencadeadas pelo mesmo mecanismo autoimune são mais frequentes nestes pacientes quando comparados com quem não tem a doença. “Assim, não é muito raro o indivíduo poder ter artrite reumatoide e tireoidite de Hashimoto ou doença celíaca associada”, diz Licia, adicionando que outros exemplos de doenças autoimunes são diabetes melitos tipo 1, vitiligo, esclerose múltipla e hepatite autoimune.

Quanto a problemas cardiovasculares, Licia diz que a inflamação poderia, por diversos mecanismos, gerar aumento desse risco . Licia explica que, mais frequente que as doenças autoimunes em pacientes com artrite reumatoide, são as que estão relacionadas à deposição de placas de aterosclerose (gordura) nos vasos sanguíneos. “Assim, devemos lembrar que doença coronariana, aterosclerose nas artérias carótidas, doença vascular periférica e acidente vascular cerebral (AVC), em especial o tipo isquêmico, podem ocorrer”. Outras condições mais frequentes em quem tem artrite reumatóide, segundo Licia, são insuficiência cardíaca congestiva, diabetes melitos tipo 2, osteoporose e distúrbio dos lipídios (colesterol, HDL e triglicerídeos).

A reumatologista salienta que a presença de comorbidades nos pacientes com artrite reumatoide é importante diante desse risco maior de infarto do miocárdio e mesmo mortalidade de causa cardiovascular, caso estas doenças concomitantes não sejam reconhecidas e tratadas de forma adequada.

Subgrupos

Licia explica que, ainda que todos os pacientes com artrite reumatoide devam ser avaliados quanto à presença de patologias associadas, é preciso lembrar que o subgrupo dos pacientes mais graves , com doença ativa por muito tempo, principalmente aqueles que têm exames positivos para o fator reumatoide em valores muito altos e/ou anticorpo anti-CCP positivos, tem mais risco de virem a desenvolver algumas doenças concomitantes e problemas cardiovasculares.

Em relação aos lipídios, as famosas gorduras circulantes prejudiciais à saúde, a reumatologista explica que pacientes com artrite reumatoide têm maior probabilidade de terem o HDL que é protetor em níveis reduzidos, o que traz maior risco a eles. “Portanto, esses indivíduos devem ser orientados a fazer atividade física e terem uma dieta adequada, com pouca quantidade de gorduras saturadas, açúcar e massas”, ressalta Licia.

Outro aspecto importante, segundo ela, é que com frequência pacientes artrite reumatoide apresentam hipertensão arterial sistêmica e esta condição deve ser prontamente diagnosticada e tratada, considerando que a hipertensão também contribui para maior risco de evento cardiovascular. “A utilização de doses elevadas de glicocorticoides e algumas drogas utilizadas no tratamento da artrite reumatoide podem contribuir para o aparecimento da hipertensão arterial, como o uso de leflunomida ou ciclosporina”, explica Licia.

Ela explica que a utilização de antiinflamatórios não-hormonais em pacientes com artrite reumatoide pode reduzir o efeito anti-hipertensivo de medicações como diuréticos, betabloqueadores, inibidores da enzima conversora da angiotensina e bloqueadores do receptor de angiotensina. “Assim eventualmente ajustes no tratamento antirreumático ou na escolha ou dose dos anti-hipertensivos pode ser necessário.”

Tratamento da AR

Nos últimos anos, diz Licia, novos conhecimentos sobre a patogênese da artrite reumatoide e o reconhecimento de novos alvos terapêuticos permitiram a inserção de novas drogas biológicas modificadoras do curso da doença (DMCD). “Outro dado importante acerca do tratamento, foi que novas estratégias de manejo da AR foram sugeridas, com a utilização de DMCD em fase mais inicial, avaliações mais frequentes dos pacientes, mudanças ou ajustes da terapêutica baseados em escores objetivos de avaliação da atividade da AR e busca de remissão clínica ou, quando não possível, baixa atividade de doença”, explica Licia, salientando que essas mudanças de conduta ocasionaram melhor prognóstico para os pacientes com diagnóstico de AR.

Entretanto, salienta Licia, apesar das marcantes conquistas do tratamento da AR, a mortalidade entre pacientes com esta doença continua superior à da população geral, e não houve mudanças significativas nos últimos anos.

Doenças cardiovasculares

O reconhecimento da importância das doenças cardiovasculares como causa de mortalidade entre os pacientes com AR vem acontecendo nos últimos anos, segundo Licia, e, entre as recomendações de tratamento desses pacientes, estão inseridos diagnóstico, prevenção e tratamento precoce das doenças como hipertensão, diabetes e aterosclerose, que aumentam o risco cardiovascular.

Licia salienta que o acompanhamento e tratamento dessas condições pode ser feito pelo médico responsável pelo paciente, inclusive por seu reumatologista, mas, em algumas situações, o co-acompanhamento com o especialista em cardiologia faz-se necessário. O texto da reportagem do Correio Brasiliziense fala ainda em um “arsenal de cuidados” para combater o avanço da artrite reumatoide.

E Licia explica que esse “arsenal” inclui diagnóstico precoce; tratamento de forma intensiva, com DMCD sintéticas e, quando necessário, biológicas; monitorização da atividade da doença; acompanhamento frequente e tratamento de toda e qualquer comorbidade que possa influenciar na evolução da AR. “Com vistas à prevenção de danos, além do tratamento habitual, é muito importante a orientação de manter um estilo de vida saudável, com alimentação balanceada, cessação de tabagismo e atividade física regular, indicada pelo médico.”

Quanto ao benefício de um diagnóstico precoce, Licia explica que a AR é considerada inicial nos seus 12 primeiros meses de evolução, que constituem a chamada “janela de oportunidade terapêutica”. “Diagnosticar e tratar precocemente a doença nessa fase, em especial nas 12 primeiras semanas após o início dos sintomas, pode mudar completamente a evolução da doença”, salienta Licia, citando que na Universidade de Brasília, há um ambulatório específico de acompanhamento de pacientes com AR em sua fase inicial (menos de um ano de doenças), a Coorte Brasília de AR inicial.

O estudo do comportamento desses pacientes gera uma série de informações inéditas sobre a doença no Brasil.

Em relação aos sintomas da AR, Licia explica que os principais que devem ser observados são dor e edema (inchaço) das articulações, em especial das pequenas (mãos, punhos e pés). “Muitas vezes, a dor é acompanhada por uma rigidez, sensação de ‘endurecimento’ das articulações, que é pior pela manhã ou após um período de repouso durante o dia.

Essa rigidez pode demorar mais de uma hora, o que é um sinal de alerta”, explica Licia, adicionando que dor e inchaço nas articulações são sintomas de risco para a artrite, e o paciente deve imediatamente procurar o médico. “Quanto mais precoce o diagnóstico e o início do tratamento, maiores são as chances de controle da doença”, ressalta.

Jornalista responsável: Maria Teresa Marques