Como o Brasil se prepara para garantir a vacina de covid-19 à população

Com acordos firmados com pesquisas estrangeiras e um dos melhores programas de vacinação pública do mundo, país está em posição relativamente segura na corrida pela imunização contra o coronavírus, avaliam especialistas.

O Brasil teve uma reação lenta e descoordenada para frear a disseminação da covid-19, com o presidente Jair Bolsonaro e parte dos governadores questionando recomendações da comunidade científica sobre o tema. Como resultado, o país atingiu no último sábado (08/08) 100 mil mortos pela doença e divide com Estados Unidos e Índia a liderança no número de novos casos diários. Os preparativos para a testagem, produção e distribuição de uma vacina eficaz, porém, colocam hoje o Brasil em uma situação relativamente segura na corrida para imunizar sua população, segundo especialistas consultados pela DW Brasil.

Há no mundo oito vacinas contra a covid-19 na fase 3 de ensaios clínicos, a última etapa antes da aprovação. Dessas, duas receberam apoio direto de autoridades brasileiras e já contam com acordos que envolvem a compra e produção em território nacional: a desenvolvida pela universidade britânica de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca, escolhida pelo governo federal, e a criada pela chinesa Sinovac, que tem o governo de São Paulo como parceiro.

As duas adotam tecnologias distintas, com vantagens e desvantagens. A aposta do presidente Jair Bolsonaro foi a de Oxford, por meio de uma parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, instituição pública sediada no Rio de Janeiro. Na quinta-feira passada, o presidente assinou uma medida provisória abrindo crédito de R$ 1,9 bilhão para adquirir a tecnologia e oferecer 100 milhões de doses para brasileiros até meados de 2021, sendo 30 milhões ainda neste ano se a vacina se mostrar eficaz, distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Paralelamente, o governador de São Paulo, João Doria, aplica recursos paulistas em uma parceria entre o Instituto Butantan, órgão público de pesquisas biológicas, e a empresa chinesa Sinovac. Se apresentar bons resultados, poderiam ser produzidas no país 30 milhões de doses dessa vacina até janeiro de 2021.

A escolha do governo federal
A opção do Ministério da Saúde pela vacina da Oxford/AstraZeneca começou a ser costurada no final de junho, quando a Fiocruz assinou um acordo prévio de cooperação para transferência de tecnologia e recebimento de insumos. A parceria foi confirmada em 31 de julho e viabilizada financeiramente pela medida provisória da semana passada.

Marco Krieger, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, afirma à DW Brasil que o país fez um contrato de encomenda tecnológica, que permite a aquisição de uma tecnologia que ainda não está pronta, e inclui todos os passos para a sua nacionalização completa, que poderia ser alcançada no meio do ano que vem.

Até lá, a Fiocruz ainda dependeria da importação do princípio ativo da vacina, cuja compra também foi assegurada pela medida provisória e seria produzido pela AstraZeneca. Caberia à fundação brasileira então realizar os outros passos da produção, como formulação, envase, rotulagem e controle de qualidade.

Nessa transição, a Fiocruz poderia entregar 30 milhões de doses ainda neste ano e 70 milhões no primeiro semestre de 2021. “De forma paralela, estaremos fazendo a transferência total da tecnologia”, com capacidade para realizar todos os passos da produção no país no segundo semestre, diz Krieger.

Ele estima que até outubro haverá dados preliminares sobre a fase 3 do ensaio clínico, que se forem positivos permitiriam a obtenção de um registro emergencial da vacina junto à Anvisa. Segundo ele, não haverá pagamento de royalties nem à Universidade de Oxford nem ao laboratório AstraZeneca, mas apenas a cobertura dos custos de produção adicionados a uma taxa de no máximo 20% para cobrir gastos com pessoal e manutenção de estrutura.

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